Esquecer o nome de alguém ou onde deixou as chaves acontece com todo mundo. Mas quando os esquecimentos se repetem, atrapalham a rotina ou preocupam a família, vale uma avaliação. A demência não é consequência inevitável do envelhecimento [1], e muitas alterações de memória têm causas que podem ser tratadas. O Dr. Tiago Abre, neurologista em Poços de Caldas, avalia pacientes com queixas de memória e doenças como o Alzheimer.
Alguns esquecimentos fazem parte do dia a dia: um nome que vem à cabeça depois, um compromisso que escapou em uma semana corrida. Já os sinais abaixo merecem atenção:
repetir a mesma pergunta ou história várias vezes no mesmo dia;
se perder em lugares conhecidos;
dificuldade para realizar tarefas habituais, como lidar com dinheiro, tomar remédios na hora certa ou cozinhar;
trocar palavras ou ter dificuldade para encontrar o nome das coisas;
confusão com datas e horários;
mudanças de humor ou de personalidade, apatia ou desconfiança fora do habitual;
perda de interesse por atividades que antes davam prazer [1].
Demência é uma síndrome em que há declínio da memória e de outras funções do cérebro (linguagem, atenção, raciocínio, orientação) a ponto de prejudicar a autonomia da pessoa. Não é uma doença única, e sim o resultado de diferentes doenças que afetam o cérebro. A OMS estima que 57 milhões de pessoas viviam com demência no mundo em 2021, com cerca de 10 milhões de novos casos por ano [1]. Entre idosos brasileiros, a demência também é frequente, e a tendência é de aumento com o envelhecimento da população [5].
Principais tipos:
Doença de Alzheimer: a causa mais comum, responsável por 60% a 70% dos casos [1]. Costuma começar com perda de memória recente.
Demência vascular: associada a AVCs e ao dano dos pequenos vasos do cérebro, frequentemente ligada a pressão alta e diabetes.
Demência com corpos de Lewy: pode causar alucinações visuais, oscilações da atenção ao longo do dia e sintomas parecidos com os do Parkinson.
Demência frontotemporal: afeta mais o comportamento e a linguagem, e costuma começar mais cedo.
Demência mista: quando há mais de uma causa ao mesmo tempo, o que é comum em idosos.
É a fase em que a pessoa e a família notam a perda de memória, e os testes confirmam alguma alteração, mas a autonomia no dia a dia se mantém. Em parte dos casos, evolui para demência. Em outros, permanece estável ou até melhora quando uma causa tratável é corrigida. Por isso é uma boa hora para investigar.
Várias condições podem causar esquecimento e são tratáveis:
depressão e ansiedade;
hipotireoidismo e deficiência de vitamina B12;
apneia e outros distúrbios do sono;
efeito colateral de medicamentos, como alguns calmantes e remédios para dormir;
perda de audição ou de visão;
infecções e outras doenças clínicas, principalmente em idosos;
consumo excessivo de álcool;
hidrocefalia de pressão normal e outras alterações estruturais do cérebro.
Identificar essas causas é uma das razões mais importantes para procurar o neurologista.
A avaliação começa com uma conversa detalhada, de preferência com um familiar ou acompanhante, pois muitas vezes quem tem o problema não percebe a extensão dele. O neurologista faz o exame neurológico e aplica testes de memória e de outras funções cognitivas. Em muitos casos, são pedidos exames de sangue, ressonância magnética ou tomografia do crânio e, quando necessário, avaliação neuropsicológica. Em situações selecionadas, exames mais específicos, chamados biomarcadores, ajudam a confirmar o diagnóstico de Alzheimer.
Ainda não existe cura para a maioria das demências, mas há tratamento, e quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o planejamento.
Medicamentos para os sintomas: como os inibidores da colinesterase e a memantina, que podem ajudar a estabilizar a memória e a funcionalidade por algum tempo no Alzheimer.
Medicamentos que atuam sobre a doença: em janeiro de 2026, a Anvisa aprovou o lecanemabe, um anticorpo monoclonal para as fases iniciais do Alzheimer (comprometimento cognitivo leve e demência leve), com confirmação de depósito de amiloide e restrição conforme o gene ApoE ε4. A administração é por infusão na veia a cada duas semanas [3]. Esses medicamentos não curam a doença, têm benefício modesto e exigem acompanhamento rigoroso de possíveis efeitos adversos. A indicação deve ser avaliada caso a caso.
Tratamento de outras condições: controle de pressão, diabetes, colesterol, depressão e do sono.
Estimulação e reabilitação: atividade física, estimulação cognitiva, fisioterapia e terapia ocupacional.
Manejo de sintomas de humor e comportamento, com orientação à família.
Apoio ao cuidador: cuidar de uma pessoa com demência é desgastante. Segundo a OMS, as mulheres respondem por cerca de 70% das horas de cuidado [1]. Informação, rede de apoio e acompanhamento do próprio cuidador fazem diferença.
A Comissão de Demência da revista The Lancet, em 2024, identificou 14 fatores de risco que podem ser modificados e estimou que cerca de 45% dos casos de demência poderiam ser evitados ou retardados [2]. Pesquisadores também calcularam esse potencial de prevenção para o Brasil [4]. Os fatores incluem:
pressão alta, diabetes, obesidade e colesterol LDL elevado;
sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool;
perda de audição e de visão não corrigidas;
depressão e isolamento social;
baixa escolaridade e poluição do ar;
traumatismo craniano.
Na prática: movimente-se com regularidade, controle a pressão, o açúcar e o colesterol, não fume, use óculos e aparelho auditivo quando indicados, mantenha vida social e atividades que estimulem a mente, durma bem e proteja a cabeça (capacete, cinto de segurança).
Organização Mundial da Saúde. Dementia (ficha informativa), versão de julho de 2026.
Livingston G et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. Lancet 2024;404:572-628. Resumo da Alzheimer's Disease International.
Anvisa aprova medicamento inédito para tratamento da doença de Alzheimer (lecanemabe), notícia de 9 jan. 2026.
The potential for dementia prevention in Brazil: a population attributable fraction calculation for 14 modifiable risk factors. Lancet Regional Health – Americas, 2025.
Prevalence of dementia among elderly Brazilians: a systematic review.