Dormir mal não é só cansaço no dia seguinte. O sono é essencial para a memória, o humor, a atenção e a saúde do coração e do cérebro. Quando o sono é ruim por semanas ou meses, vale investigar. O Dr. Tiago Abreu, neurologista em Poços de Caldas, avalia pacientes com insônia, ronco, sonolência excessiva e outras queixas do sono.
Para adultos, o consenso das sociedades americanas de medicina do sono é de 7 horas ou mais por noite de forma regular [1]. Mais importante que o número exato é acordar descansado e funcionar bem durante o dia.
Insônia: dificuldade para pegar no sono, para manter o sono ou acordar muito cedo sem conseguir voltar a dormir, com prejuízo no dia seguinte (cansaço, irritação, dificuldade de concentração). Quando ocorre pelo menos 3 noites por semana, por 3 meses ou mais, é considerada crônica [4].
Apneia obstrutiva do sono: pausas na respiração durante o sono, geralmente acompanhadas de ronco alto. A pessoa acorda cansada, com dor de cabeça pela manhã e sono excessivo durante o dia. Um estudo populacional em São Paulo mostrou que a condição é frequente entre adultos, principalmente em homens e com o avanço da idade e do peso [3]. A apneia não tratada está ligada a pressão alta, arritmias e maior risco de AVC.
Síndrome das pernas inquietas: vontade irresistível de mexer as pernas, com desconforto que piora no fim do dia e ao deitar, e melhora ao se movimentar.
Narcolepsia e outras causas de sonolência excessiva: sono forte durante o dia, mesmo após uma noite completa, às vezes com adormecimentos repentinos.
Parasomnias: comportamentos anormais durante o sono, como sonambulismo, terror noturno e o transtorno comportamental do sono REM, em que a pessoa "vive" os sonhos com gritos, socos e chutes. Esse último merece atenção do neurologista, pois em alguns casos pode aparecer anos antes de outras doenças neurológicas. Isso não significa que todo paciente vá desenvolvê-las, mas o acompanhamento é recomendado.
Alterações do ritmo do sono: quando o relógio biológico fica fora do horário, como em quem dorme muito tarde ou trabalha em turnos.
ronco alto com pausas na respiração, percebidas por quem dorme ao lado;
sono excessivo durante o dia, ou cochilos em situações perigosas, como ao dirigir;
insônia que dura semanas e atrapalha o trabalho e o humor;
desconforto nas pernas que impede de dormir;
gritos, movimentos bruscos ou queda da cama durante o sono;
acordar com dor de cabeça com frequência.
A consulta inclui perguntas detalhadas sobre os hábitos de sono, medicações, consumo de cafeína e álcool, e saúde geral. O médico pode pedir que você registre o sono em um diário por 1 a 2 semanas e usar questionários de sonolência. Quando há suspeita de apneia ou de outros distúrbios, indica-se a polissonografia, exame que monitora o sono durante a noite, ou, em casos selecionados, o teste domiciliar.
O tratamento depende do tipo de distúrbio:
Insônia crônica: a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é recomendada como primeira escolha, antes dos medicamentos [2]. Ela trabalha hábitos e pensamentos que mantêm a insônia e tem efeito mais duradouro.
Apneia do sono: pode incluir perda de peso, ajuste de hábitos, aparelho de pressão positiva (CPAP), dispositivo oral ou, em casos selecionados, cirurgia.
Pernas inquietas, narcolepsia e parasomnias: têm tratamentos específicos, que o neurologista define depois de investigar a causa.
Medicamentos: podem ajudar em situações específicas, mas devem ser prescritos e acompanhados. O uso de "remédios para dormir" por conta própria pode causar dependência, perda de memória, sonolência e risco de quedas, e pode mascarar uma causa tratável.
mantenha horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana;
deixe o quarto escuro, silencioso e fresco;
evite telas e luz forte na hora antes de dormir;
evite cafeína no fim da tarde e à noite, e limite o álcool;
faça refeições leves à noite;
pratique atividade física regularmente, de preferência longe do horário de dormir;
use a cama só para dormir; se não conseguir, levante e volte quando sentir sono.
Watson NF et al. Recommended amount of sleep for a healthy adult: a joint consensus statement of the AASM and SRS. Sleep 2015.
Qaseem A et al. Management of chronic insomnia disorder in adults: a clinical practice guideline from the American College of Physicians. Ann Intern Med 2016.
Tufik S et al. Obstructive sleep apnea syndrome in the São Paulo Epidemiologic Sleep Study. Sleep Med 2010.
American Academy of Sleep Medicine. International Classification of Sleep Disorders, 3ª edição (ICSD-3), 2014.