Fraqueza nas pernas ou nos braços, câimbras frequentes, formigamento nos pés, pálpebra caída, dificuldade para engolir. Esses sintomas podem ter origem em doenças neuromusculares, que afetam os nervos, os músculos ou a conexão entre eles. Muitas têm tratamento, e o diagnóstico correto faz diferença. O Dr. Tiago Abreu, neurologista em Poços de Caldas, avalia pacientes com queixas de fraqueza, dormência e dor muscular.
Para o corpo se mover, a ordem sai do cérebro, passa pela medula, segue por um nervo, atravessa a junção entre o nervo e o músculo e chega ao músculo. Doenças neuromusculares são as que afetam qualquer ponto dessa via, exceto o cérebro:
neurônio motor (células que comandam os músculos), como na ELA e na atrofia muscular espinhal;
nervos periféricos, nas neuropatias e na síndrome de Guillain-Barré;
junção neuromuscular, como na miastenia gravis;
músculo, nas miopatias e distrofias musculares.
Sinais mais comuns: fraqueza, cansaço muscular fora do normal, câimbras, fisgadas ou "tremores" sob a pele (fasciculações), diminuição do volume dos músculos, formigamento, dormência, queimação, perda de equilíbrio, e, nos casos mais sérios, dificuldade para falar, engolir ou respirar.
Neuropatias periféricas
Acometem os nervos dos braços e das pernas e causam formigamento, queimação, dormência (muitas vezes em "meia" e em "luva"), perda de sensibilidade, dor e, em alguns casos, fraqueza. Com a perda da sensibilidade nos pés, a pessoa pode se machucar sem perceber.
A causa mais comum é o diabetes. Segundo a Associação Americana de Diabetes, em pessoas com diabetes tipo 2 a neuropatia está presente em cerca de 10% a 15% no momento do diagnóstico e chega a aproximadamente 50% depois de 10 anos de doença. Por isso, a prevenção, com bom controle do açúcar, da pressão e do colesterol e com atividade física regular, é a base do cuidado [4].
Outras causas incluem deficiência de vitamina B12, consumo excessivo de álcool, alterações da tireoide, doenças autoimunes, quimioterapia, infecções (como a hanseníase, ainda presente no Brasil) e causas hereditárias, como a doença de Charcot-Marie-Tooth. A síndrome do túnel do carpo, em que um nervo do punho fica comprimido e causa formigamento nas mãos, principalmente à noite, também faz parte desse grupo.
Síndrome de Guillain-Barré e polineuropatia inflamatória crônica
Na síndrome de Guillain-Barré, o sistema imunológico ataca os nervos periféricos, em geral depois de uma infecção, como uma gastroenterite por Campylobacter, gripe ou Zika. Começa com formigamento ou fraqueza nas pernas, que pode subir para braços e rosto. Em cerca de um terço dos casos, os músculos do tórax são afetados e há dificuldade para respirar [3].
É uma emergência: o paciente precisa de internação e monitoramento, e o tratamento com imunoglobulina na veia ou plasmaférese é mais eficaz quando começa cedo. Segundo a OMS, a maioria das pessoas se recupera completamente, mas algumas ficam com fraqueza residual [3]. Quando a doença evolui por mais de 8 semanas, o quadro pode ser uma polineuropatia inflamatória crônica (CIDP), que também tem tratamento.
Miastenia gravis
É uma doença autoimune em que o corpo ataca os receptores da junção entre o nervo e o músculo. O sintoma típico é a fraqueza que piora com o esforço e melhora com o repouso, às vezes ao longo do dia: pálpebra caída, visão dupla, voz arrastada, dificuldade para mastigar e engolir, fraqueza nos braços e nas pernas. Afeta mais mulheres jovens (abaixo de 40 anos) e homens acima de 60, mas pode ocorrer em qualquer idade. Não é hereditária nem contagiosa [1].
Cerca de 15% a 20% dos pacientes têm em algum momento uma crise miastênica, com fraqueza grave dos músculos da respiração, que exige atendimento de emergência. Infecções, estresse, cirurgias e alguns medicamentos podem desencadear a crise [1]. Por isso, quem tem miastenia deve sempre avisar sobre a doença antes de usar um novo remédio.
O diagnóstico combina exame neurológico, exames de sangue para anticorpos e exames elétricos dos nervos e músculos. O tratamento pode incluir piridostigmina, corticoides e outros imunossupressores, retirada do timo (timectomia) em casos selecionados, medicamentos que bloqueiam o sistema complemento e, nas crises, imunoglobulina ou plasmaférese [1]. A maioria dos pacientes consegue levar uma vida ativa com acompanhamento.
Esclerose lateral amiotrófica (ELA)
A ELA é uma doença progressiva dos neurônios motores do cérebro e da medula, que leva a fraqueza e atrofia dos músculos. Os primeiros sinais incluem fraqueza em uma mão ou perna, câimbras, fasciculações, voz arrastada ou dificuldade para engolir. Os sintomas começam mais comumente entre 55 e 75 anos. Cerca de 90% dos casos não têm história familiar [2].
Em geral, a maior parte das pessoas sobrevive de 3 a 5 anos após o início dos sintomas, e cerca de 1 em cada 10 vive mais de 10 anos. Existem medicamentos que retardam a progressão, como o riluzol, e outros em uso em alguns países, como a edaravona e a tofersena (para uma forma genética específica). O cuidado com equipe multidisciplinar (neurologia, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, terapia ocupacional e suporte respiratório) é fundamental para manter a função e a qualidade de vida pelo maior tempo possível [2].
Miopatias e distrofias musculares
Doenças que atingem o próprio músculo. Costumam causar fraqueza nos músculos da cintura (dificuldade para subir escadas, levantar da cadeira ou pentear o cabelo), às vezes com dor e urina escura. Incluem as miopatias inflamatórias (como a polimiosite e a dermatomiosite), as miopatias causadas por medicamentos (por exemplo, algumas pessoas têm dor muscular com estatinas) e as distrofias musculares, como a de Duchenne, que afeta meninos desde a infância. A dosagem da enzima CPK no sangue e a eletroneuromiografia ajudam na investigação, e, em alguns casos, são necessários biópsia muscular ou teste genético.
Se você sentir dores musculares ou fraqueza ao usar um medicamento, converse com o médico antes de suspendê-lo.
Atrofia muscular espinhal (AME)
Doença genética que afeta os neurônios motores da medula e causa fraqueza muscular progressiva, com formas que aparecem desde o nascimento até a idade adulta. Nos últimos anos surgiram tratamentos que modificam a evolução da doença, e quanto mais cedo começam, melhores os resultados. No Brasil, o SUS oferece tratamento para AME dos tipos I e II, incluindo o risdiplam, incorporado em 2023 [5].
Ligue para o SAMU (192) ou vá a um pronto atendimento se houver:
falta de ar, ou dificuldade para respirar associada a fraqueza;
engasgos frequentes ou dificuldade para engolir de início recente;
fraqueza que piora em horas ou poucos dias e sobe das pernas para o corpo;
pálpebra caída com visão dupla que piora, principalmente em quem já tem miastenia.
Agende consulta com o neurologista se tiver fraqueza persistente, câimbras e fasciculações frequentes, formigamento ou dormência que não passam, quedas ou perda de força nas mãos.
A investigação começa com a conversa e o exame neurológico, em que o médico avalia a força, os reflexos e a sensibilidade. Os exames mais comuns são:
eletroneuromiografia: avalia a condução dos nervos e a atividade dos músculos e é central na investigação de neuropatias, miastenia e miopatias;
exames de sangue: glicemia, vitamina B12, tireoide, CPK, anticorpos e outros, conforme a suspeita;
punção lombar (análise do líquor), em suspeita de Guillain-Barré;
ressonância magnética, para afastar outras causas;
biópsia de nervo ou músculo e testes genéticos, em casos selecionados.
Depende da doença. Em geral inclui:
imunoterapia (corticoides, imunossupressores, imunoglobulina e plasmaférese) para as doenças autoimunes;
controle da causa, como o diabetes ou a deficiência vitamínica, nas neuropatias;
medicamentos específicos, como os da miastenia e da ELA;
reabilitação: fisioterapia motora e respiratória, fonoaudiologia (fala e deglutição), terapia ocupacional e orientação nutricional;
suporte respiratório nos casos em que a respiração fica comprometida;
aconselhamento genético nas formas hereditárias;
acompanhamento da família e do cuidador.
National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS). Myasthenia gravis.
National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS). Amyotrophic lateral sclerosis (ALS).
Organização Mundial da Saúde. Guillain-Barré syndrome (ficha informativa), outubro de 2025.
Pop-Busui R et al. Diabetic neuropathy: a position statement by the American Diabetes Association. Diabetes Care 2017;40:136-154.
Conitec. Pacientes com AME tipo I e II ganham mais uma opção de tratamento com a oferta do medicamento risdiplam no SUS, maio de 2023.