A epilepsia é uma das doenças neurológicas mais comuns do mundo e, ao mesmo tempo, uma das mais cercadas de mitos. Estima-se que cerca de 50 milhões de pessoas vivam com a doença [1]. Com diagnóstico correto e tratamento adequado, a maioria consegue controlar as crises e levar uma vida normal. O Dr. Tiago Abreu, neurologista em Poços de Caldas, atende pacientes com epilepsia e outras crises neurológicas.
Epilepsia é uma doença do cérebro caracterizada pela tendência de ter crises epilépticas, que surgem por uma descarga elétrica anormal e excessiva dos neurônios. Pela definição da Liga Internacional contra a Epilepsia (ILAE), o diagnóstico pode ser feito em três situações: duas ou mais crises sem fator desencadeante, com mais de 24 horas entre elas; uma única crise com risco alto de recorrência (cerca de 60% ou mais em 10 anos); ou o diagnóstico de uma síndrome epiléptica [2].
Ter uma única crise, portanto, nem sempre significa ter epilepsia. Por isso a avaliação com o neurologista é importante.
Nem toda crise é "convulsão" com o corpo todo tremendo. A classificação atual da ILAE separa as crises conforme o local onde começam no cérebro [3]:
Crises focais: começam em uma região do cérebro. Podem causar sensações estranhas, movimentos repetitivos, olhar parado, confusão ou perda de consciência.
Crises generalizadas: envolvem os dois lados do cérebro desde o início. Incluem as crises tônico-clônicas (com enrijecimento e tremores do corpo) e as ausências, comuns em crianças, com "desligamento" breve.
Início desconhecido: quando não foi possível saber onde a crise começou.
Em muitos pacientes não se encontra uma causa definida. Quando ela existe, pode ser genética, uma lesão estrutural (sequela de AVC, trauma na cabeça, tumor, malformação), uma infecção como meningite ou neurocisticercose, ou alterações metabólicas e imunológicas [1,3]. A OMS estima que cerca de 1 em cada 4 casos de epilepsia poderia ser prevenido, com cuidados no parto, prevenção de traumas e combate a infecções [1].
Quem está ao lado da pessoa pode ajudar muito, mantendo a calma:
proteja a cabeça e afaste objetos que possam machucar;
vire a pessoa de lado quando os movimentos pararem;
afrouxe roupas apertadas e marque quanto tempo a crise dura;
não segure a pessoa, não coloque nada na boca e não ofereça água ou comida durante a crise.
Ligue para o SAMU (192) se a crise durar mais de 5 minutos, se uma crise seguir a outra sem recuperação, se houver ferimento, se a pessoa tiver dificuldade para respirar ou se for a primeira crise.
O mais importante é a história clínica: como foi a crise, o que a pessoa sentiu antes e depois e o relato de quem presenciou. O neurologista complementa a avaliação com eletroencefalograma (EEG) e ressonância magnética do crânio. Um EEG normal não exclui epilepsia, e por isso o resultado sempre deve ser interpretado junto com o quadro clínico. Filmar a crise, quando possível, ajuda bastante na consulta.
Medicamentos. O tratamento básico é feito com medicamentos antiepilépticos, tomados todos os dias. Segundo a OMS, até 70% das pessoas com epilepsia poderiam ficar livres de crises com o tratamento adequado [1]. Em um estudo clássico com 525 pacientes recém-diagnosticados, 63% ficaram sem crises, e cerca de metade (47%) já respondeu ao primeiro medicamento [4].
Epilepsia refratária. Quando as crises persistem apesar do uso correto de pelo menos dois medicamentos bem indicados e bem tolerados, o quadro é chamado de epilepsia resistente a medicamentos [9]. Nesses casos, vale a avaliação em centro especializado, pois existem outras opções, como a cirurgia. Em um estudo randomizado sobre epilepsia do lobo temporal, a cirurgia levou a muito mais pacientes livres de crises do que a continuação do tratamento clínico isolado [7].
Cuidados importantes:
não interrompa nem troque o medicamento por conta própria, pois a suspensão brusca pode provocar crises;
mantenha sono regular e evite excesso de álcool;
mulheres em idade fértil devem planejar a gravidez com o neurologista, porque alguns medicamentos, em especial o valproato, têm maior risco de malformações no bebê, e esse risco aumenta com a dose [8]. O ajuste deve ser feito antes de engravidar;
alguns antiepilépticos podem reduzir a eficácia de anticoncepcionais hormonais, o que deve ser discutido na consulta.
O controle das crises é o principal fator de segurança. Pessoas com epilepsia têm risco de morte prematura até três vezes maior que o da população geral [1]. Uma complicação rara é a morte súbita inesperada em epilepsia (SUDEP), que ocorre em cerca de 1 em cada 1.000 adultos com epilepsia por ano e em cerca de 1 em cada 4.500 crianças. O principal fator de risco são as crises tônico-clônicas frequentes, e ficar livre delas está associado a menor risco [5]. Isso mostra por que tomar a medicação corretamente e manter o acompanhamento regular faz diferença.
"Epilepsia pega." Não é contagiosa.
"É doença mental." É uma doença neurológica.
"Quem tem epilepsia não pode estudar ou trabalhar." Com a doença controlada, a grande maioria leva vida normal. O estigma ainda é um dos maiores obstáculos enfrentados pelos pacientes [1].
Organização Mundial da Saúde. Epilepsy (ficha informativa), versão de fevereiro de 2024.
Fisher RS et al. ILAE Official Report: A practical clinical definition of epilepsy. Epilepsia 2014;55(4):475-482.
Fisher RS et al. Instruction manual for the ILAE 2017 operational classification of seizure types. Epilepsia 2017;58(4):531-542.
Kwan P, Brodie MJ. Early identification of refractory epilepsy. N Engl J Med 2000;342:314-319.
Harden C et al. Practice guideline summary: SUDEP incidence rates and risk factors. Neurology 2017;88:1674-1680.
Li LM et al. Demonstration project on epilepsy in Brazil: situation assessment. Arq Neuropsiquiatr 2007;65(Supl 1).
Wiebe S et al. A randomized, controlled trial of surgery for temporal-lobe epilepsy. N Engl J Med 2001;345:311-318.
Tomson T et al. Comparative risk of major congenital malformations with eight different antiepileptic drugs: a prospective cohort study of the EURAP registry. Lancet Neurol 2018;17:530-538.
Kwan P et al. Definition of drug resistant epilepsy: consensus proposal by the ad hoc Task Force of the ILAE Commission on Therapeutic Strategies. Epilepsia 2010;51:1069-1077.