Tremor nas mãos, lentidão para andar, movimentos involuntários, músculos que se contraem sozinhos, desequilíbrio. Esses sinais fazem parte dos transtornos do movimento, um grupo de doenças neurológicas que alteram o controle dos movimentos sem causar fraqueza muscular. Muitos têm tratamento que melhora bastante a qualidade de vida. O Dr. Tiago Abre, neurologista em Poços de Caldas, avalia pacientes com Parkinson, tremores, distonias e outras alterações do movimento.
São condições em que o cérebro, especialmente as áreas que regulam o movimento (como os gânglios da base e o cerebelo), passa a controlar o movimento de forma alterada. Podem se manifestar de dois jeitos:
movimentos a menos ou mais lentos, com rigidez, como no parkinsonismo;
movimentos a mais, involuntários, como tremores, distonias, coreia, mioclonias e tiques.
Doença de Parkinson
É a mais conhecida. A OMS estimava mais de 8,5 milhões de pessoas com a doença no mundo em 2019 [1], e estudos de base populacional no Brasil mostram que o parkinsonismo é frequente entre idosos [4,5].
Sintomas motores:
lentidão dos movimentos (bradicinesia), com dificuldade para abotoar a roupa, escrever (letra que vai diminuindo) ou levantar da cadeira;
tremor de repouso, que costuma começar em um lado do corpo e aparece com a mão parada;
rigidez muscular;
passos curtos, arrastar os pés e desequilíbrio;
voz baixa e expressão do rosto mais "parada" [1].
Sintomas não motores, que podem surgir anos antes dos motores: perda do olfato, prisão de ventre, sono agitado com movimentos e gritos, depressão, ansiedade, dor e queda de pressão ao levantar. Com o tempo, alguns pacientes também apresentam alterações de memória e sono [1].
O diagnóstico é clínico. Pelos critérios internacionais da Sociedade de Transtornos do Movimento, o parkinsonismo é definido pela lentidão associada a tremor de repouso ou rigidez [2]. O neurologista também afasta outras causas, e exames de imagem podem ser pedidos quando há dúvida.
Parkinsonismos secundários e atípicos
Nem todo parkinsonismo é doença de Parkinson. Alguns medicamentos podem provocar um quadro parecido, como certos antipsicóticos, a metoclopramida (para enjoo) e a flunarizina e a cinarizina (usadas para tontura). Esse tipo costuma melhorar com ajuste da medicação, por isso nunca suspenda um remédio por conta própria. Há ainda doenças mais raras que causam parkinsonismo, como a atrofia de múltiplos sistemas e a paralisia supranuclear progressiva, que respondem pior aos remédios habituais. Diferenciar esses quadros é papel do neurologista.
Tremor essencial
É o tremor mais comum entre adultos. Aparece quando a pessoa usa a mão: segurar um copo, escrever, comer com colher. Pode atingir também a cabeça e a voz, e costuma haver casos na família. Uma revisão de estudos publicada em 2021 estimou prevalência de 0,32% na população geral, que sobe com a idade: cerca de 0,9% entre 60 e 69 anos, 1,5% entre 70 e 79 e 2,9% depois dos 80 [3].
A diferença para o Parkinson é que o tremor essencial aparece mais com o movimento e o do Parkinson é típico do repouso. Mas há casos em que os dois se confundem, e só a avaliação clínica diferencia. O tratamento inclui medicamentos como o propranolol e a primidona e, nos casos mais graves que não respondem, procedimentos como a estimulação cerebral profunda.
Distonia
Contrações musculares involuntárias e sustentadas, que causam torção ou posturas anormais. Pode atingir uma região só (distonias focais), como o pescoço (torcicolo espasmódico), as pálpebras (blefaroespasmo) ou a mão (câimbra do escrivão). A toxina botulínica é um dos principais tratamentos das distonias focais, com aplicações repetidas ao longo do ano. Outras opções incluem medicamentos e, em alguns casos, cirurgia.
Espasmo hemifacial
Contrações repetidas de um lado do rosto, geralmente começando ao redor do olho. Costuma ser tratado com toxina botulínica e, em casos selecionados, com cirurgia.
Coreia e doença de Huntington
A coreia causa movimentos involuntários, irregulares e rápidos, que parecem "dançantes". Pode ter várias causas. A doença de Huntington é uma delas: é hereditária, e além dos movimentos pode causar alterações de humor, comportamento e memória. O diagnóstico é confirmado por teste genético, sempre com aconselhamento genético para o paciente e a família.
Tiques e síndrome de Tourette
Tiques são movimentos ou sons repentinos e repetitivos, como piscar, fungar ou limpar a garganta, que a pessoa consegue segurar por pouco tempo. Costumam começar na infância e, em muitos casos, diminuem na adolescência. O tratamento começa com orientação e terapia comportamental, e os medicamentos ficam para quando os tiques atrapalham a vida escolar, social ou profissional.
Ataxias
Desequilíbrio, andar de pernas abertas e falta de coordenação, causados por alterações no cerebelo e suas conexões. Podem ser genéticas ou ter outras causas, como uso excessivo de álcool, deficiências de vitaminas, doenças autoimunes, tumores e alguns medicamentos. Investigar a causa é fundamental, pois algumas são tratáveis.
Outros
Mioclonias (abalos rápidos, como "choques"), discinesia tardia (movimentos involuntários após uso prolongado de certos medicamentos) e síndrome das pernas inquietas também fazem parte do grupo e têm abordagem própria.
Procure atendimento de urgência ou ligue para o SAMU (192) se houver:
início súbito de movimento anormal, fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou desvio da boca;
febre com muita rigidez muscular e confusão, principalmente após começar ou trocar um medicamento.
Agende consulta com o neurologista se perceber tremor persistente, lentidão ou rigidez que atrapalham o dia a dia, quedas frequentes, engasgos, movimentos involuntários novos ou dificuldade para andar.
Na maioria dos casos, o diagnóstico é clínico, baseado na história e no exame neurológico, em que o médico observa a marcha, o tônus muscular, o tremor e os movimentos. Se possível, filme os movimentos em casa e leve a lista de medicamentos em uso. Exames, como ressonância magnética, exames de sangue e testes genéticos, são pedidos quando há dúvida ou para investigar causas específicas.
O tratamento depende do diagnóstico e pode combinar:
Medicamentos: na doença de Parkinson, a combinação de levodopa com carbidopa é o tratamento principal, e há outras classes que complementam. Não existe cura, mas o tratamento reduz os sintomas [1].
Toxina botulínica: para distonias, espasmo hemifacial e alguns tipos de tremor.
Cirurgia e neuromodulação: a estimulação cerebral profunda pode reduzir tremores e a necessidade de medicação em pacientes selecionados [1].
Reabilitação: fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Exercícios de força, equilíbrio e marcha são recomendados no Parkinson [1].
Segurança em casa: prevenção de quedas, adaptação do ambiente e acompanhamento da família.
Organização Mundial da Saúde. Parkinson disease (ficha informativa), agosto de 2023.
Postuma RB et al. MDS clinical diagnostic criteria for Parkinson's disease. Mov Disord 2015;30:1591-1601.
Song P et al. The global prevalence of essential tremor, with emphasis on age and sex: a meta-analysis. J Glob Health 2021;11:04028.
Barbosa MT et al. Parkinsonism and Parkinson's disease in the elderly: a community-based survey in Brazil (the Bambuí study). Mov Disord 2006.
Prevalence, distribution and future projections of Parkinson disease in Brazil: insights from the ELSI-Brazil cohort study. Lancet Regional Health – Americas, 2025.